Mais coisas sobre a greve. Desta vez, é um relato de um amigo meu, que presenciou uma agradável visita dos Grevistas. Todos conhecem os grevistas mais "default" dos seus respectivos campus. São aqueles cabeludos, barbudos, estranhos, minas mal comidas... Conhecidos por todos. Pois é. Estou vendo o dia em que eles baterão na nossa porta.
Antes do texto, eis uma pesquisa para vocês USPianos. Respondam e concorram a uma greve!! =D
http://greveusp.dnsalias.com/
Agora ao Texto na íntegra:
Prezados colegas,
Adianto desde já que o que escrevo aqui não é somente um relato, mas sim uma nota de repúdio ao ocorrido na aula de Política Comparada do professor Rogério Arantes ministrada no prédio de Ciências Sociais. Os eventos que relato junto à minha nota de repúdio se deram hoje, dia 16 de junho de 2009; por estar com a memória do ocorrido ainda viva, espero não faltar com a verdade.
Sou matriculado nesta disciplina no período noturno, sendo que normalmente assisto às aulas nas quintas-feiras. Entretanto, com o intuito de pegar a nota de minha prova, resolvi assisti-la hoje (terça-feira) à tarde. Éramos mais ou menos doze em sala de aula, dos quais metade ou mais eram alunos de Relações Internacionais. Antes que desse tempo de o professor começar a aula, duas meninas e um rapaz entraram em sala e pediram um espaço para poder passar a sua mensagem, solicitação à qual o professor respeitou. Uma das garotas, identificando-se como membro do Centro Acadêmico de Ciências Sociais nos tentou convencer então que estando presentes à aula estavámos ferindo o direito da maioria ausente e grevista (a média de alunos presentes em sala no período vespertino normalmente é de trinta alunos) de assistir a mesma, assim deveríamos nos retirar. Apresentou então todos os argumentos colocados pelos grevistas: Univesp, fora PM, fora Suely, universidade mais democrática, etc. Com a resposta negativa dos alunos presentes interessados em assistir à aula, sendo que defendemos o fato de os alunos grevistas assumiram os custos e os benefícios de sua greve, de que tínhamos o direito de não aderir a greve, como os alunos da FEA e POLI, a garota membro do Centro Acadêmico disse que a FEA é um exemplo de unidade sucateada, que nunca mais fez nenhum intelectual após as fundações. Respondi a ela que, pelo contrário, as coisas na FEA pareciam estar funcionando bem melhor que na FFLCH, que os alunos da FFLCH, ao contrário dos FEAnos, tinham mesmo motivo para se manifestarem, mas não impedindo que os alunos interessados possam assistir à aula.
A garota resolveu então mostrar ao que tinha vindo e nos avisou que caso insistíssemos em assistir à aula seríamos impedidos por piquete; enquanto isso os outros dois que estavam com ela, saíram de sala para chamar a corja. O professor resolveu então mostrar um texto, através do retroprojetor, no qual um outro professor alega que os piquetes dos alunos e funcionários são um convite à violência, e que não deveríamos ceder a este tipo de convite. A aluna retrucou dizendo que como membro do Centro Acadêmico era seu dever garantir, não importando os meios, o direito da maioria ausente grevista em assistir aula e fazer avaliação em condições iguais. Mesmo sendo convidada para se sentar e assistir a aula sobre Constituição (que lhe cairia muito bem na compreensão dos direitos fundamentais por sinal), e mesmo sendo avisada de que a avaliação restante era somente um trabalho, nada a fazia ceder. Eis que a sala de aula é invadida então por uns 30 ou mais alunos "grevistas", enquanto a discussão se tornava cada vez mais difícil com os tambores, palmas e gritos dos demais de fora da sala. Definitivamente um clima de tensão já tinha se instalado e estavámos começando a temer pela nossa integridade física. O professor, percebendo o perigo da situação, resolveu interromper a verborragia grevista e colocou: "Todos os argumentos já foram colocados pelos dois lados. Estamos divididos em dois lados explícitos, de princípios diferentes, sendo que não haverá concessão de nenhum dos lados. Portanto, só quero uma resposta franca: temos um professor querendo dar aula, temos alunos interessados em assistir aula, e temos vocês querendo impedir a aula; vocês impedirão à força se quisermos continuar?". De fato, fazê-los enxergar que quem estava usando a força não era somente a PM parecia ser a única saída honrosa para aquela situação absurda. Os grevistas, evidentemente, tiveram muita dificuldade em responder a pergunta de maneira objetiva, mas acabaram por ter que assumir, não sem antes tentar apoiar sua posição no que foi decidido pela Assembléia Geral, esta instituição altamente democrática, de representatividade invejável, da qual o resto da USP resolveu se alienar: "Sim, se não conseguirmos convencer, nós impediremos à força". Pois bem, não é de se admirar que quem possua argumentos fracos tenha que apelar à força. Não saí de sala de aula sem antes ter que aguentar a garota do Centro Acadêmico apontar o dedo na minha cara e dizer "você não faz nada na sua vida, nunca teve que ceder a uma decisão que não foi tomada por você", no que lhe respondi, com calma, que fazia sim, visto que eu sou estagiário na própria USP, já fiz até iniciação científica e gostaria muito de poder assistir às aulas sem ser impedido. "É gente como você que durante a luta pela democracia insistia em assistir aula, ainda bem que nós existimos para impedí-los!". Retruquei novamente: "Ontem usavam a força pela democracia, hoje é contra a Univesp, e amanhã? Vocês usarão a força pelo quê?". Essa síndrome de regime militar... O autoritarismo se foi, mas restou na USP essa revolução esquizofrênica.
O saldo final dessa história é o intuito desse meu relato e dessa minha nota de repúdio: nada mais pretendo que fazê-los conhecer com quem estamos lidando. Esse movimento de alunos grevistas que estão aí não se interessa pelos fins da luta, mas pelos meios em si: a luta, a baderna e a confusão. Eles não possuem escrúpulos e usarão a maioria ausente como argumento de legitimação para suas ações. Não duvidem, a maioria deles deu saltos de alegria com a lambança da PM na semana passada; agora sim possuíam uma agenda pra justificar a baderna: fora PM, fora Suely! Eram os motivos perfeitos para praticar a "participação na vida política universitária", também entendida como impedir aulas e o funcionamento do bandejão da química, através da força e dos piquetes. "Oba, somos revolucionários! Estamos lutando por uma universidade mais justa, igualitária e democrática!". Adeus, direitos fundamentais.
E assim caminha a universidade.
Cumprimentos tristes e indignados,
Mateus Marinheiro
Aluno do 4º ano de Relações Internacionais
PS: O professor Rogério Arantes continuará tentando dar aula (com o perdão do gerundismo). Para quem quiser assistir o espetáculo de perto, é só comparecer quinta-feira às 19:30 ou terça-feira às 14:00 na sala 101 do prédio de Ciências Sociais.
--> Espero que tenham gostado do texto e que pensem bem antes de entrar para assistir a uma aula furando a greve ;]
Darvius, o Ás da Ironia.